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A minha árvore de Natal

  • Foto do escritor: Auro Valizi
    Auro Valizi
  • 20 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Imagem ilustrativa (Crédito: OpenAI, via ChatGPT)
Imagem ilustrativa (Crédito: OpenAI, via ChatGPT)

Depois que descobri que Papai Noel não existia, pelo menos conforme rezava a lenda, e que ele era apenas o rapaz da loja que se fantasiava como tal, para mim a coisa mais esperada na época natalina passou a ser a árvore de Natal.


A gente havia se mudado para uma outra casa. Meu pai, além de radialista, também era eletricista. E um dia ele apareceu com um monte de fios elétricos e várias lâmpadas coloridas, dizendo: “Vamos montar uma árvore de Natal!”.


No quintal, ao lado da nossa casa, havia uma árvore que ficava perto do alpendre e próxima do muro da calçada. Ela possuía tronco fino e na época da florada ajudava a embelezar a fachada da residência. Sua copa ia até a altura do telhado e todos os que passavam pela rua podiam vê-la, porque o muro era baixo, como era característico da grande maioria das casas naquela época.


Depois que o meu pai preparou aquele longo fio elétrico, com os bocais e as lâmpadas instaladas, ele encostou a escada na árvore, subiu e começou a passar a fiação pela copa da árvore. E quando foi à noite, a nossa primeira árvore de Natal foi ligada.


Fiquei encantado! As lâmpadas eram do mesmo formato daquelas convencionais da época, do tipo incandescente; porém eram de tamanho menor, pequeninas. Eram várias cores: verde, amarela, vermelha, rosa, laranja, azul e até mesmo branca. Dentre todas elas, a que eu achava mais bonita era a azul.


E quando a gente saía à noite para ir a algum lugar, ao retornarmos, à medida que nos aproximávamos da nossa casa, a gente podia contemplar aquela árvore colorida, com as suas luzes piscando alternadamente; ora umas, ora outras. Se não me falha a memória, parece que era a única casa do nosso quarteirão que tinha uma decoração natalina externa; e talvez, não tenho certeza, a única daquela rua. Por isso, chamava atenção de todos que passavam pela rua.


E justamente por ser algo raro, pois poucas casas na cidade faziam isso, é que era tão belo de se ver. Durante muitos anos seguintes, na época do Natal, a coisa mais esperada por mim, com grande expectativa e alegria, era ver o meu pai montando a árvore, e depois de acesa poder contemplá-la.


Os anos se passaram e novos modelos de acessórios para iluminação natalina surgiram. Lembro-me de quando a nova moda era iluminar o traçado da estrutura arquitetônica das casas, prédios, monumentos, e envolver as árvores das avenidas, jardins e praças com todas aquelas luzinhas, produzindo um visual encantador. Lindo mesmo!


Mas isso se tornou muito popular, muito comum, a ponto de perder a graça. Para qualquer lado que olhávamos, lá estava aquela infinidade de luzinhas esparramadas, envolvendo tudo o que era possível. Bonito, sim; mas não era mais algo inusitado; ficou comum demais; quase todo mundo tinha aquilo em suas fachadas.


Por isso, até hoje, aquela árvore de Natal da nossa casa, na minha época de infância, cuja imagem trago em minhas lembranças, foi mais significativa para mim do que a sofisticação das decorações de hoje. Primeiro, porque era montada pelo meu pai (que de fato era o Papai Noel, porque ele é quem comprava os presentes que durante os anos anteriores eu acreditava que eram trazidos pelo bom velhinho) enquanto a gente ficava ao redor aguardando a conclusão da montagem, para vê-la acesa à noite. E segundo, porque naquela época as casas que tinham uma árvore em seu jardim, com decoração natalina, eram muito poucas na cidade. Normalmente, quem fazia isso era rico ou tinha um emprego no qual ganhava bem, e o meu pai não se enquadrava em nenhuma dessas duas opções. Assim, essas casas iluminadas eram tão raras que quando à noite a gente encontrava alguma pela cidade, era um deslumbramento; como se tivéssemos encontrado um tesouro.


Destarte, ter uma dessas árvores decoradas em nossa casa era tão emocionante; muito mais do que qualquer brinquedo que pudéssemos ganhar. Se você me perguntar qual o presente de Natal mais bonito que já ganhei enquanto criança, sem sombra de dúvida direi: a árvore de Natal que papai montava. E, certamente, ela também encantava todas as crianças que por aquela rua passavam.


(Crônica revisada/reeditada; publicada originalmente em Miscelânea, edição 1, dezembro/2017).

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