Papai Noel vinha me visitar
- Auro Valizi
- 9 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
(Por Auro Valizi)

Lembro-me de quando eu era criança, antes dos seis anos de idade, e o meu pai me dizia na noite de Natal: “Coloque seus sapatinhos junto à porta da sala, que o Papai Noel virá trazer um presente para você”.
Naquela época a gente não tinha acesso a aparelho de televisão, nem revistas, nem jornais. Eu nunca tinha visto o Papai Noel. Mas eu sabia que ele era um velhinho de barba branca porque eu via sua imagem retratada nos inúmeros cartões natalinos que a minha família recebia; cada cartão mais lindo do que o outro. Hoje, os cartões são virtuais; isso não tem graça. Receber via correios era mais emocionante, pelo menos para mim.
Então, eu deixava os meus sapatos junto à porta. À noite, enquanto eu dormia, meu pai ia até lá e colocava o meu presente junto aos sapatos. No dia seguinte eu acordava e corria até a porta, e lá estava o meu presente, embrulhado. Eu abria e era uma bola de futebol. Sabe aquelas bolas de plástico que, de tão leve e ligeiramente deformadas, você não consegue chutar em linha reta? Por mais que você tente, elas sempre vão para os lados. Então, era essa a bola.
Por uns três ou quatro anos seguidos repetiu-se a mesma cena. Quando eu olhava o presente embrulhado, redondo, logo pensava: “Será que é outra bola?”. E de fato era! Hoje compreendo que o meu pai gostava tanto de futebol, e ainda gosta, que provavelmente o sonho dele era que eu me tornasse um jogador profissional, e as bolas de presentes eram para eu ir treinando.
Certa vez questionei: “Pai, se o Papai Noel entra pela chaminé das casas, e aqui em casa não tem chaminé, como é que ele faz para entrar?”. Meu pai respondeu: “É que nas casas onde não tem chaminé, o Papai Noel tem uma cópia da chave da porta”. A resposta fazia sentido, e acreditei.
E assim, segui acreditando na existência daquele bom velhinho, mesmo sem nunca ter visto um além das imagens nos cartões natalinos. Os anos da primeira infância passaram-se e, não me recordo bem em qual idade, acho que por volta dos 6, 7 ou 8 anos, pela primeira vez o meu pai comentou que iria até uma loja comprar o meu presente de Natal. Achei estranho aquilo de “ir comprar” o presente na loja, mas não questionei.
E pela primeira vez o Papai Noel (aquele da loja) veio trazer o meu presente e entregou a mim pessoalmente. A partir daquele momento o encanto acabou-se para mim, pois a magia de tudo isso estava justamente no invisível, no imaginário, em pensar que na noite de Natal o bom velhinho viria trazer (sabe-se lá de onde) um presente e deixá-lo junto aos meus sapatinhos.
Atualmente, quando pergunto a alguma criança com idade entre três e cinco anos quem é o Papai Noel, ela geralmente me responde que ele não existe. Que na verdade é uma pessoa que trabalha na loja e que vem fantasiada trazer o presente que os pais compram.
Neste mundo atual, em que quando a gente expressa uma opinião, um ponto de vista, logo recebe um monte de “pedradas”, nem me arrisco a opinar sobre o que os pais devem ou não dizer aos seus filhos sobre o Papai Noel. Apenas posso dizer que, para mim, imaginar o bom velhinho vindo na noite de Natal deixar um presente junto aos meus sapatinhos marcou minha infância.
Mais cedo ou mais tarde as crianças acabam descobrindo a verdade. Então, por que não prolongar essa fantasia no imaginário delas até quando der? Ao mesmo tempo, nesse mundo moderno no qual vivemos, com tanta informação acessível às crianças, seria praticamente impossível sustentar essa fantasia por muito tempo.
Ainda assim, tenho a convicção de que as crianças talvez precisem de menos tecnologia em suas vidas e um pouco mais de magia, de encanto. Porque se uma criança não for capaz de imaginar, de fantasiar, de acreditar em algo invisível, correrá o risco de, quando se tornar adulta, não acreditar na possibilidade de realizar os seus sonhos e projetos de vida.
(Crônica revisada/reeditada; publicada originalmente em Miscelânea, edição 1, dezembro/2017).





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